O medo

O escritor dinamarquês Kare Bluitgen não conseguiu encontrar um ilustrador para o seu livro infantil sobre a vida de Maomé. Todos tinham medo de represálias. Medo de lhes advir a mesma sina do cineasta Theo van Gogh, assassinado por denunciar a violência praticada contra as mulheres na comunidade islâmica. Ou a de Salman Rushdie, dos seus tradutores e editores um pouco por todo o mundo.
Perante isto, o editor de cultura do jornal Jillands Posten convidou quarenta desenhadores para elaborar cartoons com o profeta. Só doze aceitaram. Os outros vinte e oito ou tinham mais que fazer, ou tiveram medo. Medo de lhes advir a mesma sina de Hirsi Ali, que vive escondida e sob protecção policial por ter colaborado com Theo van Gogh. Ou de Taslima Nasrin, cujos livros foram queimados em público e que viu lançada contra si uma fatwa, por ter ousado sugerir que o Corão devia ser revisto.
Os cartoons, publicados em Setembro de 2005, suscitaram a ira de dirigentes religiosos muçulmanos na Dinamarca, ira que foi deliberadamente exportada e disseminada por todo o mundo árabe. Dessa ira resultaram já dez mortos, dezenas de feridos, embaixadas destruídas, retirada de pessoal diplomático e de missões de ajuda internacional, ameaças de bomba e jornalistas despedidos.
É o círculo do medo, propalado pelas hierarquias e assimilado pelos crentes como guerra santa. O terror é modus operandi de extremistas e muitos muçulmanos contentar-se-iam com manifestações pacíficas? Pois, como muitos muçulmanos não estarão de acordo com a violência contra as mulheres que desobedecem aos preceitos religiosos que as mantém como cidadãos de segunda. O que é que isso altera, quando o medo lhes tolhe a capacidade de se oporem ao terror institucionalizado?
O medo é intolerável. Nenhum artista deve deixar de criar por medo. Nenhum jornalista deve deixar de relatar por medo. Nenhum ser humano deve ter de viver com o medo. NADA, nenhuma religião, nenhum deus, nenhum profeta, nenhuma civilização justifica os fautores da violência e os cultores do medo.
A fraca qualidade da maioria dos cartoons dinamarqueses é pormenor pingente. A ideologia de centro-direita do jornal que primeiro os publicou, absolutamente despicienda. O direito à indignação de quem acha blasfemo retratar um profeta nem sequer está em causa. Justificar o terror em requebros de respeito pela religião, dicotomias políticas ou teorias geoestratégicas é coisa de pusilânimes, que se agacham sob a máscara de pruridos diplomáticos, ideológicos, ou académicos. Cumpre-nos a todos recusar o medo, o medo que corrói, o medo que destrói, o medo que diminui cada ser humano.
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